Entre alguns fatores que influenciam na tradução do conteúdo espiritual para a dimensão física está a capacidade imaginativa do médium.
Se por um lado a imaginação se constitui num elemento indispensável para a produção mediúnica, à medida que permite ao espírito explorá-la para expandir a quantidade e a qualidade de informações trazidas da dimensão extrafísica, por outro, o “excesso” de imaginação representa um motivo que promove a distorção dessa mesma informação, onde o sensitivo começa, por conta própria, a criar outra realidade daquela que efetivamente se apresenta.
Este processo que o sensitivo pode provocar denomina-se de imagética, isto é, a capacidade de criar, evocar ou manipular imagens mentais e experiências sensoriais (visuais, auditivas, táteis etc.) na mente.
Nestes casos, o médium geralmente parte de uma realidade “concreta” da dimensão espiritual, mas a atuação febril da sua criatividade distorce completamente esta percepção.
Para o médium, a sua descrição corresponde exatamente ao que está ocorrendo no contexto espiritual, no entanto, não passa da deformação plástica daquela referência inicialmente “visualizada”.
O tema é complexo e merece a atenção dos sensitivos, dos estudiosos de mediunidade, dos grupos mediúnicos e, sobretudo, dos dirigentes de reunião mediúnica.
Entendamos um pouco como a ciência atual compreende a imaginação e façamos uma interface desse conhecimento com os enunciados espíritas para tentar se chegar a alguma conclusão sobre o tema.
IMAGINAÇÃO, NEUROCIÊNCIA E MEDIUNIDADE
A natureza da imaginação tem sido redefinida pela ciência na última década. Se anteriormente era vista como uma "reprodução enfraquecida da realidade", estudos recentes (Saha Roy, 2025) a caracterizam como uma transformação neural ativa.
No campo da mediunidade, essa "transformação" é a chave para entender como o pensamento de um desencarnado é decodificado pelo cérebro do médium.
A neurociência atualmente estabeleceu que a imaginação não utiliza as mesmas rotas neurais exatas da visão, mas sim um subespaço de dimensões reduzidas. Isso explica por que imaginamos "conceitos" antes de "detalhes".
Na obra Nos Domínios da Mediunidade, o espírito André Luiz descreve a "tela mental" do médium como o campo onde se processa o reflexo do pensamento comunicante.
A mediunidade, portanto, não é uma recepção passiva, mas uma cocriação.
O espírito projeta a "ideia-matriz", e o cérebro do médium, utilizando sua plasticidade imaginativa, "veste" essa ideia com as imagens disponíveis em seu arquivo cerebral.
Se o médium possui uma imaginação rica e educada, a tradução é fiel; se a imaginação é viciada ou limitada, ocorre a filtragem ou a deformação da mensagem original. Mais: se a imaginação é criativa, ela impulsiona uma eclosão de imagens derivativas.
O APRENDIZADO IMAGINATIVO E O RISCO DO ANIMISMO
Um dos maiores desafios apontados por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns é a distinção entre o conteúdo do espírito e o do próprio médium (animismo ou personismo).
A pesquisa publicada na Nature Communications (2025) demonstra que o cérebro aprende com experiências imaginadas de forma tão real quanto com experiências físicas, ativando os centros de recompensa e dopamina.
Para o médium, isso significa que a sensação de realidade de um pensamento próprio pode ser idêntica à de um pensamento intuído. Isto, presumo pela experiência, é o mais comum nas “mesas mediúnicas”.
A "influência da imaginação" citada por Allan Kardec (Cap. XX) não é necessariamente uma fraude voluntária, mas um processo biológico onde a mente do médium, entusiasmada pelo tema, "completa" a lacuna da mensagem espiritual com suas próprias projeções, acreditando sinceramente na fonte externa.
IDEOPLASTIA E A "VESTE" DO PENSAMENTO
Em Mecanismos da Mediunidade, André Luiz detalha a Ideoplastia — a capacidade do pensamento de moldar a matéria mental. Isso correlaciona-se com os modelos de IA Generativa e Cocriação Humana (2025), onde a "intuição de risco" humana e a capacidade de síntese moldam o resultado final.
Neste caso, a imaginação atua como o tradutor simultâneo:
- O
Espírito → envia a essência (o
"núcleo de radiação").
- A
Imaginação do Médium → fornece a forma (a
roupagem da mensagem).
Se um espírito deseja descrever uma paisagem de paz, ele evoca no médium os símbolos de paz que este possui.
Se o médium nunca viu o mar, sua imaginação poderá traduzir "paz infinita" como um campo de trigo.
A imaginação influencia a mediunidade fornecendo o léxico visual e conceitual para o invisível.
A imaginação não deve ser vista como a inimiga da mediunidade, mas como sua ferramenta indispensável. Sem a capacidade de transformar sinais abstratos em imagens e conceitos (processo agora mapeado pela neurociência), a comunicação espiritual seria ininteligível para o cérebro físico.
A recomendação de Allan Kardec para o "estudo e a cultura" e a de André Luiz para a "disciplina mental" visam, em última análise, expandir esse subespaço neural imaginativo, permitindo que o médium seja um tradutor cada vez mais preciso da realidade extrafísica.
A partir deste entendimento, solicita-se
- Ao
médium → humildade na exposição dos conteúdos que lhe chegarem à
mente, compreendendo que ele representa um meio oscilante de percepção da
realidade e não um tradutor fiel desta;
- Ao
dirigente mediúnico ou dialogador →
discernimento para operar o transe mediúnico como um campo de investigação da
realidade espiritual e não considerar o médium como um espelho absoluto dela.
Tal postura de cientista da alma vai ao encontro da prática investigativa do sistematizador do Espiritismo, Allan Kardec:
"Para
mim, eles [os espíritos] foram, do menor ao maior, meios de me informar e não
reveladores predestinados. Tais as disposições com que empreendi meus estudos e
neles prossegui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que
constantemente segui."
Continuemos a investigar, portanto, as interfaces e imbricações entre imaginação e fenômeno mediúnico. Estamos ainda muito distantes para dar a última palavra. Se é que um dia ela existirá.
Carlos Pereira
Referências Bibliográficas
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns: ou guia dos
médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Brasília: FEB,
2013.
XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Nos
Domínios da Mediunidade. 32. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita
Brasileira, 2005.
XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ (Espírito). Mecanismos
da Mediunidade. 26. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira,
2006.
OLAZABAL, M. et al. The Revolution of Imagination in
Climate Adaptation. PLOS Climate, v. 5, n. 2, p. 112-128, fev. 2026.
SAHA ROY, T. et al. The neural transformation of visual
signals into mental images. bioRxiv (Preprint), set. 2025. Disponível
em: [link fictício/exemplo]. Acesso em: 27 fev. 2026.
Se desejar estudar mais sobre mediunidade, acesse:
https://iniciacaoapraticadamediunidade.blogspot.com/







